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SUS Deficiente: 75% da Cegueira Poderia Ser Evitada

Em um alerta contundente, especialistas reunidos em audiência pública na Câmara dos Deputados recentemente revelaram que até 75% dos casos de cegueira poderiam ser prevenidos através do diagnóstico precoce. O debate, promovido pela Comissão de Saúde no âmbito da campanha Abril Marrom, expôs a face cruel do subfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a crônica falta de acesso na atenção básica, que impedem milhões de brasileiros de exercerem seu direito fundamental à visão plena e à saúde pública.

Contexto e detalhes

A discussão na Casa Legislativa apontou que doenças como glaucoma e retinopatia diabética figuram entre as principais causas de perda de visão evitável no Brasil. Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma, destacou que o glaucoma, a principal causa de cegueira irreversível no mundo, afeta cerca de 3,5% das pessoas com mais de 40 anos, sendo que 90% desses casos permanecem sem diagnóstico devido à manifestação tardia dos sintomas. A situação é igualmente grave para a retinopatia diabética, principal causa de cegueira em idade produtiva, com 56% dos portadores de diabetes desconhecendo sua condição, conforme Lúcia Xavier, da Associação de Diabetes Brasil. A deputada Carla Dickson (União-RN), propositora do debate, criticou duramente a remuneração insuficiente dos procedimentos oftalmológicos pelo SUS, que desestimula a oferta de profissionais e prolonga as filas de espera, comprometendo a prevenção e o tratamento. Maria Auxiliadora Frazão, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, reforçou que prevenir a cegueira é significativamente mais econômico do que lidar com suas vastas consequências sociais e econômicas.

Impacto para os trabalhadores

A falta de acesso a exames e tratamentos oftalmológicos adequados tem um impacto devastador sobre a classe trabalhadora e a economia do país. A cegueira, especialmente quando atinge indivíduos em idade produtiva, não só rouba a independência pessoal, mas também limita drasticamente a capacidade de trabalho e a geração de renda. Isso sobrecarrega sistemas de seguridade social e amplifica as desigualdades sociais. As longas filas por consultas especializadas e a demora na incorporação de novas tecnologias no SUS, como apontado pela Retina Brasil, representam um entrave direto aos direitos trabalhistas e à qualidade de vida. O custo social da cegueira, que inclui reabilitação, aposentadorias por invalidez e a perda de capital humano, é imensurável e reforça a urgência de um investimento público robusto e estratégico na área da saúde visual. A ausência de uma atenção básica eficaz e de uma rede de atendimento bem organizada transforma uma condição evitável em uma tragédia pessoal e um ônus coletivo.

Próximos desdobramentos

Diante do cenário crítico, o Ministério da Saúde, através da coordenadora de projetos Gabriela Hidalgo, destacou iniciativas como os Orçamentos de Cuidados Integrados (OCIs), que visam aumentar o financiamento por atendimento completo (entre R$ 200 e R$ 400) para agilizar diagnósticos e cirurgias de catarata. Além disso, o ministério planeja atualizar os protocolos clínicos para tratamento do glaucoma em 2026. No entanto, a lentidão na incorporação de medicamentos e implantes inovadores no SUS, conforme ressaltado por representantes da sociedade civil, continua sendo um desafio significativo. A pressão por uma reforma estrutural no financiamento da saúde e por uma organização mais eficiente da rede de atendimento persistirá. A expectativa é que o debate na Câmara estimule a formulação de políticas públicas mais eficazes e que garantam à população o acesso irrestrito ao diagnóstico precoce e ao tratamento da cegueira, transformando os alertas dos especialistas em ações concretas para a defesa do direito à visão.

Fonte: https://www.camara.leg.br