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Profissionais da saúde em Moçambique ameaçam fechar portas das unidades

Profissionais de saúde em Moçambique denunciam colapso no setor e ameaçam fechar unidades em defesa de condições dignas e do direito à vida.

Escrevo hoje não como acadêmico ou analista, mas como cidadão inquieto. Em Moçambique, profissionais de saúde ameaçam encerrar unidades sanitárias a partir de sexta-feira. Não se trata de um simples braço de ferro trabalhista. Trata-se de vidas. E vidas não são estatísticas negociáveis.

Desde janeiro, o impasse arrasta-se como uma doença crônica mal tratada. Segundo os próprios profissionais, o número de mortes nas unidades hospitalares teria aumentado de 700 para 1.116 casos, em um contexto de paralisação parcial dos serviços. Não é apenas um dado frio ou isolado. É um sintoma. Quando um sistema de saúde passa a produzir mais óbitos do que esperança, algo estrutural está falhando.

Os grevistas relatam escassez de recursos humanos, medicamentos e material médico-cirúrgico. Isso não é novidade para quem frequenta hospitais públicos: filas longas, receitas que não podem ser atendidas nas farmácias, cirurgias adiadas por falta de luvas. A precariedade tornou-se rotina. O extraordinário passou a ser encontrar tudo funcionando.

Em coletiva de imprensa, a Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), liderada por Anselmo Muchave, denunciou o que classifica como colapso do setor. A palavra é forte, mas talvez seja precisa. Quando uma unidade sanitária opera abaixo dos padrões mínimos, deixa de ser solução e se aproxima perigosamente de se tornar risco — e até sentença — para os cidadãos.

Também é exigida a demissão do ministro da Saúde, acusado de inércia diante da crise. Demissões podem ter peso simbólico e, em alguns casos, ser necessárias. Mas não substituem reformas estruturais. O problema da saúde pública moçambicana não nasceu ontem e não será resolvido por um simples ato formal de troca de comando.

Por que o setor mais vital do Estado é tratado como despesa e não como investimento estratégico? Países que compreendem a centralidade da saúde investem em formação contínua, gestão eficiente e autonomia técnica. Aqui, muitas vezes, a lógica política se sobrepõe à técnica. E quando a técnica é ignorada, o resultado aparece nas enfermarias.

Não romantizo greve em hospital. Greve em hospital é sempre um drama ético. Mas também não romantizo o silêncio diante da precariedade. Profissionais exaustos, mal remunerados e sem condições adequadas não conseguem oferecer cuidado digno. A medicina depende de vocação, sim, mas também de condições concretas. Juramento não substitui medicamento; é apenas requisito para exercer a profissão.

Se as unidades sanitárias fecharem, não será apenas um capítulo sindical. Será um espelho cruel da fragilidade institucional do Estado. Um país que não consegue garantir o funcionamento básico de seus hospitais compromete a própria estabilidade social. Saúde pública não é favor de governo; é dever do Estado.

Esta crise exige menos discursos protocolares e mais decisões baseadas em evidências: auditoria independente, transparência orçamentária, gestão profissionalizada e diálogo efetivo com a categoria. O restante é retórica.

Quando um hospital fecha, ninguém vence. Fecha-se um serviço essencial, amplia-se o sofrimento social e nega-se, na prática, o direito à vida. E a negação de um direito fundamental exige responsabilização pública.