O atentado contra o jornalista Carlitos Cadangue, correspondente da STV na província de Manica, ocorrido na noite de quarta-feira, em Chimoio, recoloca no centro do debate público moçambicano a relação tensa entre liberdade de imprensa, segurança e responsabilidade do Estado. O comunicado oficial da Presidência da República, datado de 5 de fevereiro de 2026, ao mesmo tempo em que condena o crime, revela os limites estruturais da proteção efetiva ao exercício do jornalismo no país.
Segundo o documento, o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, condena “em termos firmes e veementes” o atentado e exige das autoridades competentes o esclarecimento do crime, com a consequente responsabilização dos seus autores. A nota oficial afirma ainda que a liberdade de imprensa deve prevalecer e associa o atentado a práticas de crime organizado, identificando o medo e a insegurança como inimigos da democracia e do desenvolvimento. Trata-se de uma narrativa institucional conhecida, que enquadra a violência contra jornalistas como uma ameaça abstrata à ordem democrática, sem, contudo, explicitar mecanismos concretos de prevenção ou proteção.
Do ponto de vista analítico, a violência contra profissionais da comunicação não pode ser tratada apenas como um desvio criminal isolado. Em contextos marcados por fragilidade institucional, concentração de poder político e circulação desigual da informação, atentados contra jornalistas adquirem um caráter político, mesmo quando executados por atores não estatais. O ataque a Carlitos Cadangue atinge não apenas um indivíduo, mas o próprio direito coletivo à informação, sobretudo em regiões periféricas ao centro político do país, como é o caso de Manica.
O comunicado presidencial expressa solidariedade ao jornalista, à sua família, à comunidade jornalística e ao Grupo SOICO, proprietário da STV. Este gesto é relevante, mas insuficiente. A literatura sobre liberdade de imprensa em democracias frágeis demonstra que declarações de condenação, desacompanhadas de investigações céleres, julgamentos transparentes e políticas públicas de proteção a jornalistas, tendem a produzir um efeito paradoxal: reforçam o discurso democrático enquanto a prática da intimidação persiste.
Ao afirmar que o Presidente “está a seguir atentamente o caso”, o texto institucional procura transmitir compromisso político. No entanto, a recorrência de ataques a jornalistas em Moçambique e a baixa taxa de responsabilização efetiva dos perpetradores indicam um problema estrutural, não conjuntural. A liberdade de imprensa, nesse sentido, não se sustenta apenas como princípio constitucional ou retórico, mas como prática garantida por instituições capazes de agir de forma independente e eficaz.
Leia a declaração:
O caso Carlitos Cadangue deve, portanto, ser compreendido como um teste à credibilidade do Estado moçambicano no que diz respeito à defesa da liberdade de imprensa. Mais do que condenar, é necessário romper o ciclo de impunidade que transforma jornalistas em alvos vulneráveis e normaliza a violência como instrumento de silenciamento. Sem esse enfrentamento direto, a democracia permanece formal, e o discurso sobre desenvolvimento perde densidade histórica e política.
Em última instância, a forma como este caso será investigado e resolvido dirá mais sobre o compromisso real do Estado com a liberdade de imprensa do que qualquer comunicado oficial. A democracia não se mede pela solenidade das palavras, mas pela coragem institucional de proteger quem informa.
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