Um jornalista foi caçado em plena via pública, à noite, a caminho de casa, com o filho ao lado. Não foi assalto. Não foi engano. Foi uma emboscada. Uma viatura de alta cilindrada, indivíduos encapuçados, fardamento que remete ao Estado e tiros disparados com intenção clara. Quem ainda insiste em relativizar a violência contra a imprensa em Moçambique precisa começar a explicar este grau de sofisticação e ousadia.
Carlitos Cadangue, correspondente da STV em Manica, sobreviveu por segundos, reflexo e acaso. Ou, como ele próprio descreve, fé: “Não sei como virei o volante, acredito que tenha sido Deus a proteger-me. A viatura saiu em alta velocidade e eles pensaram que eu tinha morrido…”. Este é um testemunho cru de alguém que esteve a centímetros da morte — e não estava sozinho.
O detalhe mais perturbador não é apenas o atentado, mas o contexto. Cadangue vinha investigando exploração ilegal de recursos mineirais em Manica. Tema sensível, interesses grandes, silêncios comprados. E, segundo o próprio jornalista, os avisos chegaram antes das balas. Mensagens. Alertas. O clássico roteiro moçambicano: primeiro intimida-se, depois executa-se — quando dá.
Aqui, a violência não serve só para calar um repórter. Serve para educar todos os outros. É pedagogia do medo. Uma mensagem indireta, mas claríssima: investigar custa caro; publicar pode custar a vida.
O uso de um uniforme associado à (PRM) Polícia da República de Moçambique agrava tudo. Mesmo que se prove tratar-se de impostores, o dano está feito. Quando o cidadão já não distingue entre autoridade e ameaça, o Estado perde o monopólio da confiança. E quando jornalistas passam a temer a própria polícia — ou quem se faz passar por ela — a liberdade de imprensa deixa de ser um direito e passa a ser um risco pessoal.
Moçambique já convive com assassinatos não esclarecidos, agressões normalizadas, processos judiciais seletivos e um silêncio institucional ensurdecedor sempre que a vítima é jornalista. O atentado contra Cadangue insere-se nessa linha contínua de impunidade. Não é exceção. É continuidade.
A pergunta central não é “quem disparou”, embora isso importe. A pergunta mais incômoda é: quem se sente confortável o suficiente para disparar? Quem tem a certeza de que nada acontecerá depois?
Enquanto não houver respostas públicas, investigações credíveis e responsabilização real, cada jornalista em Moçambique passa a trabalhar sob uma sombra de dúvidas. Alguns continuarão. Outros se calarão. E é exatamente isso que o atentado pretende.
Hoje foi em Chimoio. Amanhã, pode ser em qualquer lugar onde a verdade incomode.
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