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Moçambique em disputa: assinaturas contra o decreto que suspende comunicações

Suspensão de comunicações em Moçambique motiva campanha de assinaturas relatada por Junior Rafael, direto do país, contra decreto que permite bloquear internet sem ordem judicial.
Suspensão de comunicações em Moçambique motiva campanha de assinaturas relatada por Junior Rafael, direto do país, contra decreto que permite bloquear internet sem ordem judicial.

Quitéria Guirengane, junto com um grupo de ativistas moçambicanos, lançou recentemente uma campanha nacional para recolher 2000 assinaturas com um objetivo claro: pedir ao Conselho Constitucional que declare inconstitucional o decreto que autoriza a suspensão administrativa de comunicações no país. A iniciativa é um sinal de alerta sobre os riscos de restrição de liberdades individuais e coletivas em momentos de tensão política e social.

O Decreto n.º 48/2025 foi aprovado pelo Governo de Moçambique em 16 de dezembro de 2025. Ele concede às autoridades administrativas poderes para suspender ou bloquear sistemas de comunicações, incluindo serviços de telecomunicações e acesso à internet, sem necessidade de ordem judicial prévia em determinados cenários de “risco iminente” à segurança pública ou à ordem social. Essa mudança legal institucionaliza práticas de corte de comunicações que já vinham ocorrendo de forma episódica durante protestos e manifestações no país, especialmente desde a crise pós-eleitoral de 2024.

Criticamente, adversários do decreto – como Quitéria Guirengane, movimentos civis e organizações de direitos humanos – argumentam que a medida é uma afronta à liberdade de expressão, acesso à informação e participação democrática. Para eles, a suspensão das comunicações se traduz numa arma de censura e controlo do fluxo de informação, principalmente em contextos de contestação popular. Essa campanha de assinaturas pretende obrigar o Conselho Constitucional a verificar se o decreto está ou não conforme a Constituição da República, e, se não o estiver, declarar sua inconstitucionalidade.

Num país em que a confiança nas instituições é frágil e a tensão política está elevada, esta mobilização cívica é um episódio significativo de contestação legal e política. A luta agora é travada tanto nas ruas como nos textos da Constituição, testando se um decreto de emergência pode coexistir com os direitos fundamentais garantidos a todos os cidadãos.