O Brasil vive uma escalada no adoecimento mental relacionado ao trabalho. Dados recentes da Previdência Social mostram que transtornos como ansiedade, depressão e burnout já estão entre as principais causas de afastamento do emprego, evidenciando uma crise de saúde mental do trabalhador que atinge diversas categorias profissionais.
O tema foi debatido no programa Conversas Cruzadas, exibido na quarta-feira (28) e apresentado por Léo Saballa Jr. A edição reuniu duas especialistas na área: a psicoterapeuta de orientação psicanalítica, professora do curso de Psicologia da Atitus Educação e doutora em Ciências Médicas pela UFRGS, Júlia Protas, e a advogada Marí Rosa Agazzi, especialista em Direito Previdenciário e Direito do Trabalho, com atuação em saúde do trabalhador.
Durante o programa, as convidadas analisaram os fatores que explicam o crescimento do sofrimento psíquico no ambiente de trabalho e destacaram que empresas também podem ser responsabilizadas quando a organização do trabalho contribui para o adoecimento.
Pressão, metas e falta de limites impulsionam adoecimento mental no trabalho
Segundo a psicoterapeuta Júlia Protas, o avanço dos transtornos mentais entre trabalhadores está ligado às transformações recentes nas relações de trabalho e ao ritmo cada vez mais intenso das cobranças profissionais.
No Conversas Cruzadas, ela explicou que a hiperconectividade, a exigência por produtividade constante e a dificuldade de se desconectar fora do expediente criam um cenário propício ao esgotamento emocional. Para a especialista, o trabalho ocupa um espaço central na construção da identidade das pessoas e, quando esse ambiente se torna fonte contínua de tensão, o impacto na saúde mental é inevitável.
A psicoterapeuta também alertou para a normalização do cansaço extremo, das jornadas prolongadas e da ausência de descanso real, inclusive durante férias. Sintomas como alterações de sono, irritabilidade, perda de interesse em atividades antes prazerosas e dificuldade de concentração podem indicar transtornos como depressão e ansiedade, exigindo acompanhamento profissional.
Precarização das relações de trabalho agrava quadro de saúde mental
Sob o ponto de vista jurídico, a advogada Marí Rosa Agazzi destacou que a precarização do trabalho tem relação direta com o aumento do adoecimento psicológico.
Durante o debate, ela apontou que modelos marcados por terceirização excessiva, pejotização e informalidade ampliam a insegurança e reduzem a proteção social, aumentando o nível de estresse entre os trabalhadores. Ambientes com metas abusivas, cobrança constante, jornadas extensas e assédio moral organizacional são fatores que favorecem o desenvolvimento de transtornos mentais.
A advogada também chamou atenção para o presenteísmo — situação em que o trabalhador permanece em atividade mesmo doente, por medo de perder o emprego ou sofrer estigmatização —, o que prolonga o sofrimento e pode agravar o quadro clínico.
NR-1 passa a exigir gestão de riscos psicossociais nas empresas
Um dos pontos centrais da discussão foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir de forma expressa os riscos psicossociais no trabalho.
Conforme explicou Marí Rosa Agazzi, a mudança obriga empresas a adotarem medidas de prevenção ao adoecimento mental, incluindo:
Medidas que passam a ser exigidas das empresas
- Identificação de fatores de risco à saúde mental no ambiente de trabalho
- Planejamento de ações preventivas
- Capacitação de gestores para reconhecer sinais de sofrimento psíquico
- Implementação de medidas para reduzir pressões organizacionais excessivas
A advogada ressaltou que a norma reforça que a saúde mental do trabalhador não é apenas uma questão individual, mas também resultado da forma como o trabalho é organizado.
Adoecimento mental gera impactos também para as empresas
Além dos prejuízos humanos, o adoecimento mental no trabalho também traz impactos econômicos. Aumento de afastamentos, queda de produtividade, rotatividade e custos com benefícios previdenciários afetam empresas e o sistema de seguridade social.
Para Júlia Protas, investir em ambientes de trabalho saudáveis, com comunicação clara, liderança preparada e políticas de prevenção, é fundamental para reduzir o sofrimento psíquico e melhorar o desempenho coletivo.
Culpa e medo ainda dificultam afastamentos por saúde mental
Outro ponto abordado no programa foi o sentimento de culpa relatado por trabalhadores que precisam se afastar por transtornos psicológicos.
A psicoterapeuta destacou que doenças mentais são condições de saúde reais e incapacitantes, e que buscar ajuda profissional deve ser encarado como parte do cuidado com a própria saúde, assim como ocorre com doenças físicas.
Sindicatos têm papel central na defesa da saúde mental do trabalhador
As especialistas também ressaltaram que enfrentar a crise de saúde mental no trabalho exige atuação coletiva. Nesse cenário, sindicatos têm papel estratégico ao orientar trabalhadores, acolher denúncias de assédio moral, pressionar por melhores condições de trabalho e fiscalizar o cumprimento das normas de proteção.
O debate no Conversas Cruzadas reforça que o recorde de afastamentos por transtornos mentais não é um problema isolado, mas reflexo de um modelo de trabalho cada vez mais adoecedor — e que precisa ser transformado para preservar a dignidade e a saúde dos trabalhadores.
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