Quando a extrema direita avança em um país, isso não fica restrito às fronteiras nacionais. A experiência mostra que ideias, métodos e projetos se espalham — e quase sempre atingem primeiro quem vive do próprio trabalho.
Foi esse o centro da conversa no programa A Hora dos Trabalhadores, que colocou lado a lado a Argentina de Javier Milei e os Estados Unidos sob liderança de Donald Trump para entender o que está em jogo para os trabalhadores brasileiros.
A conclusão do debate foi direta: o que acontece em Buenos Aires e em Washington chega ao Brasil em forma de reforma trabalhista, precarização, privatização e ataque aos sindicatos.
Argentina como laboratório de retirada de direitos
O primeiro exemplo analisado no programa foi a Argentina. Para os participantes, o que está acontecendo no país vizinho não é apenas uma reforma pontual, mas parte de um projeto mais amplo de reorganização das relações de trabalho sob a lógica da extrema direita.
Ao comentar o cenário argentino, Ana Paula Almada classificou as mudanças propostas como um profundo retrocesso. Entre os pontos debatidos estão a ampliação da jornada para até 12 horas, restrições à licença médica e alterações significativas nas garantias trabalhistas. Para ela, o que está em curso é um ataque frontal a conquistas históricas: “são direitos básicos conquistados ao longo dos anos sendo cruelmente atacados”.
Ronas Filho complementou essa leitura ao afirmar que a reforma não pode ser tratada como simples ajuste técnico. Segundo ele, trata-se de um projeto estruturado de desmonte, que vai muito além da retórica de “modernização” utilizada pelo governo Milei. O dirigente alertou ainda que o caso argentino tem sido acompanhado de perto por setores da direita brasileira. “Milei é a menina dos olhos da extrema direita brasileira”, afirmou, explicando que há, no Brasil, grupos interessados em reproduzir aqui a mesma política de choque implementada em Buenos Aires.
Israel Dutra aprofundou a análise ao situar a reforma argentina dentro de um movimento internacional mais amplo. Para ele, a experiência de Milei cumpre um papel estratégico: “o Milei trata a reforma trabalhista como um verdadeiro experimento para a extrema direita”. Na sua avaliação, a Argentina se tornou um campo de teste para um modelo que combina retirada acelerada de direitos, enfraquecimento das organizações sindicais e ampliação das privatizações, abrindo caminho para uma reorganização mais agressiva do capitalismo na região.
A resistência também atravessa fronteiras
Se a Argentina aparece como um laboratório da extrema direita, ela também se consolidou como um exemplo concreto de resistência organizada. Ao longo da conversa, ficou evidente que o avanço de Milei não se deu sem enfrentamento. Em pouco mais de dois anos de governo, o presidente argentino já enfrentou quatro greves gerais — um dado que, por si só, indica que o ajuste não foi recebido com passividade.
Para os participantes do programa, esse número não é apenas estatístico. Ele revela que, quando há organização real da classe trabalhadora, o avanço das reformas não acontece de maneira automática. As paralisações nacionais, as mobilizações nas ruas e a pressão constante sobre o Congresso mostram que existe um limite para o desmonte quando a base social reage. A Argentina, portanto, não é apenas um campo de teste da extrema direita; é também um território onde trabalhadores têm demonstrado disposição de luta.
Essa constatação foi importante no debate porque rompe com a ideia de inevitabilidade. Reformas regressivas podem avançar, mas não são naturais nem inquestionáveis. Dependem sempre do grau de organização e resistência social.
Dos ajustes nacionais à reorganização da extrema direita global
A partir da Argentina, o debate ampliou o foco para os Estados Unidos e o papel de Donald Trump na reorganização internacional da extrema direita. A avaliação apresentada foi a de que o trumpismo não pode ser compreendido apenas como um governo conservador tradicional. Ele representa algo mais profundo: uma tentativa de reorganizar o poder global sob uma lógica nacionalista agressiva e autoritária.
Na análise desenvolvida durante o programa, o fascismo contemporâneo não surge em um contexto de prosperidade, mas de crise. Como foi destacado, trata-se de uma resposta de um capitalismo que enfrenta limites e reage de forma mais dura para preservar seus interesses. Nesse cenário, rompimento de acordos internacionais, pressões econômicas sobre países da América Latina e uso político do nacionalismo se tornam instrumentos centrais.
A política externa norte-americana foi apresentada como parte dessa engrenagem. Pressões sobre governos latino-americanos, disputas por recursos estratégicos e tentativas de reconfigurar alianças regionais não são movimentos isolados. Eles se conectam a uma lógica maior de reorganização de poder e influência. Assim como a reforma argentina não é apenas uma decisão doméstica, o trumpismo também opera como referência para forças conservadoras em outros países.
O impacto direto sobre o Brasil
À primeira vista, pode parecer que esses acontecimentos estão distantes da realidade brasileira. No entanto, o argumento central do debate foi justamente o contrário: a política internacional se traduz em decisões concretas que afetam a vida dos trabalhadores.
Quando um governo como o de Milei consegue avançar com uma reforma profunda contra direitos trabalhistas, isso fortalece setores que defendem medidas semelhantes em outros países. Quando o trumpismo reorganiza forças conservadoras na América Latina, cria-se um ambiente político favorável à ampliação de ataques contra sindicatos, serviços públicos e garantias sociais.
Nesse contexto, a luta antifascista deixa de ser um debate abstrato. Ela passa a ser entendida como defesa concreta da jornada de trabalho, do salário, da previdência, do serviço público e da própria organização sindical. A disputa ideológica internacional desemboca, inevitavelmente, no chão da fábrica, no hospital, na escola e no transporte público.
Fascismo hoje: outra forma, mesmo alvo
Um ponto importante da conversa foi a necessidade de atualizar o entendimento sobre o fascismo. Muitos associam o termo exclusivamente às imagens da Segunda Guerra Mundial, às câmaras de gás e aos regimes totalitários clássicos. No entanto, o debate apontou que o neofascismo contemporâneo opera de maneira diferente, ainda que preserve um núcleo comum.
Hoje, o ataque aparece frequentemente sob a forma de retirada de direitos, criminalização de movimentos sociais, enfraquecimento de sindicatos e disseminação de discursos que colocam trabalhadores uns contra os outros. A estética pode ser diferente, mas o alvo continua sendo o mesmo: quem vive do próprio trabalho e depende de direitos coletivos para sobreviver com dignidade.
Ao trazer esse debate para uma linguagem acessível, os participantes insistiram que compreender o neofascismo é fundamental para que ele não avance sem resistência. Não se trata de exagero retórico, mas de identificar padrões de ataque que se repetem sob novas roupagens.
Eleições, estratégia e mobilização
Um dos momentos mais sinceros do programa surgiu quando o debate saiu da geopolítica e entrou em um terreno muito concreto: o dilema das eleições no Brasil. A pergunta não foi abstrata. Ela partiu da experiência real de quem está à frente de um sindicato e precisa dialogar diariamente com a base.
Ana Paula Almada verbalizou uma inquietação que atravessa muitos militantes. Ao falar sobre a promessa de retirar a Trensurb do Programa Nacional de Desestatização — promessa que, segundo ela, não foi cumprida — expôs o desconforto que isso gera na base sindical. “Eu tenho dentro de mim ultimamente um problema muito grande”, disse. E foi além: “não sei se nem a palavra certa é dúvida, eu acho que é vergonha mesmo… como é que eu vou votar no cara que me prometeu que ia tirar a Trensurb do PND?”
A fala não foi retórica. Foi a expressão de uma tensão real entre expectativa, promessa e realidade. E é exatamente esse tipo de contradição que marca o debate político entre trabalhadores.
Ao responder, Israel Dutra buscou organizar essa tensão a partir de uma distinção que considerou fundamental: a diferença entre tática e estratégia. Para ele, derrotar a extrema direita nas urnas pode ser uma necessidade concreta, mas isso não significa adesão automática ao programa do governo. “Se pode votar no Lula sem endossar a maior parte da política dele”, afirmou de forma direta. E completou: “nós votamos no Lula porque achamos que ele é melhor que o Bolsonaro. Tem que dizer as coisas como são para as massas”.
A posição defendida por Dutra é a de que a disputa eleitoral é um momento da luta de classes — importante, mas não absoluto. Ele alertou que uma vitória da extrema direita mudaria drasticamente o cenário, impondo um ambiente ainda mais hostil para sindicatos e movimentos sociais. Ao mesmo tempo, insistiu que nenhuma eleição substitui a organização permanente: “não vai ser líder messiânico que vai salvar a classe trabalhadora… do céu, a única coisa que cai é chuva”.
Ronas Filho também reforçou que as eleições têm peso real. “Elas vão determinar qual vai ser a nossa política… de 2027 para frente”, afirmou, lembrando que o resultado influencia o grau de dificuldade das lutas futuras. Mas, assim como os demais participantes, deixou claro que o centro da estratégia não pode ser deslocado para o calendário eleitoral. A luta sindical, segundo ele, precisa continuar independentemente de quem esteja no governo.
O que emergiu desse trecho do debate foi uma síntese importante: é possível construir unidade tática contra a extrema direita sem abrir mão da independência política e da crítica. A mobilização não pode ser suspensa em nome da governabilidade, assim como a crítica não pode servir de pretexto para enfraquecer a resistência contra projetos autoritários.
Num cenário complexo, a clareza estratégica passa justamente por reconhecer contradições sem simplificá-las. E, sobretudo, por manter o foco no que foi repetido ao longo de todo o programa: sem organização de base, nenhuma vitória eleitoral se sustenta — e nenhum direito se preserva.
Nada cai do céu
O encerramento do programa consolidou uma ideia que atravessou toda a conversa: o avanço da extrema direita, seja na Argentina de Milei, nos Estados Unidos sob Trump ou nas disputas políticas no Brasil, não é acidental. Trata-se de um projeto organizado, com conexões internacionais e impactos diretos sobre direitos trabalhistas, serviços públicos e organização sindical. Ao mesmo tempo, os exemplos citados ao longo do debate, como as greves gerais argentinas e a mobilização indígena no Tapajós, demonstram que esse avanço encontra resistência quando há mobilização consistente da classe trabalhadora.
Nesse contexto, Israel Dutra resumiu a perspectiva apresentada no programa ao afirmar que “do céu, a única coisa que cai é chuva”. A frase dialoga com a noção central do debate: direitos não são concessões espontâneas nem garantias automáticas produzidas apenas por eleições. Eles dependem de organização, pressão e luta coletiva. Entre Argentina, Estados Unidos e Brasil, a mensagem foi clara: entender o cenário internacional é fundamental, mas é na base, nos locais de trabalho e nas ruas, que se decide o rumo concreto das conquistas sociais.
Conferência Antifascista – Porto Alegre
📍 Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
📅 26 a 29 de março de 2026
🌎 Participação de delegações internacionais
✊ Objetivo: fortalecer a articulação contra o avanço da extrema direita e ampliar a mobilização da classe trabalhadora
Mais informações em: antifas2026.org
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