Três crianças. Duas meninas de 12 e 13 anos e um menino de 14. Não são números, não são estatística, não são “danos colaterais”. São vidas arrancadas à noite, em silêncio, na aldeia de Mumo, a menos de 40 quilómetros da vila-sede de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado.
Segundo relatos locais, os atacantes entraram sem disparar. Usaram o silêncio como estratégia. Não para poupar vidas, mas para facilitar o rapto. As crianças brincavam perto de casa. Brincavam. Em 2026, brincar ainda deveria ser um direito básico. Em Cabo Delgado, virou risco.
O mais perturbador não é apenas o sequestro. É a normalização do horror. Desde 2017, o terrorismo assola Cabo Delgado e, mesmo assim, continuamos a falar como se fosse novidade. Não é. O que muda é o alvo: ontem aldeias inteiras, hoje crianças. Amanhã, quem?
As autoridades foram informadas. Há buscas em curso e quiçá. O administrador distrital deslocou-se à aldeia. Tudo isso é importante, mas insuficiente. Apoio psicológico às famílias não devolve filhos. Visitas oficiais não substituem segurança efetiva. Declarações de preocupação não interrompem redes terroristas.
Cabo Delgado vive numa espécie de estado suspenso, onde o medo dita horários, rotas e decisões. Comunidades deslocam-se, regressam, voltam a fugir. O terror não dispara sempre. Às vezes, apenas entra, escolhe e leva. Como em Mumo.
Defensores de direitos humanos chamam o que se viveu em Mumu como atos brutais. Ataques que espalham pânico, desintegram laços comunitários e corroem qualquer ideia de normalidade. Quando crianças são sequestradas, não é só uma família que sofre. É o futuro inteiro que fica refém. E o estado que perde e a sociedade que perde seu horizonte.
Até quando vamos aceitar comunicados como resposta? Até quando Cabo Delgado será tratado como exceção permanente? O silêncio dos terroristas naquela noite foi ensurdecedor. O silêncio político, esse, já dura há anos.
Fonte: LUSA com DW África, via Integrity.
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